Entre dor e descoberta, obra de Frida Kahlo permanece viva pelo olhar de outros artistas

Publicado no portal Saraiva Conteúdo
13 de julho de 2014

60 anos após sua morte, a mexicana vem sendo ressignificada em diferentes expressões artísticas; neste mês, o Brasil recebe exposição inédita sobre a artista

Quando a mexicana Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderon morreu, em 13 de julho de 1954, aos 47 anos, já havia deixado um legado importante para a arte, sendo uma das primeiras artistas a romper com os padrões masculinos da pintura. Nesses 60 anos, a figura de Frida Kahlo ganhou ainda mais força, sendo invocada por outros artistas nos palcos, fotografia, artes plásticas e ilustrações, além de ser referência para as feministas. Como ícone pop, a mexicana é hoje uma das principais referências latinas, com sua imagem exposta até em camisetas e ímãs de geladeira.

Entre os projetos que fazem referência a Frida está o “Todos Podem Ser Fridas”, da fotógrafa paulistana Camila Fontenele. O projeto tem a proposta de transformar homens em Frida a partir dos cinco fragmentos: amor, dor, inteiro, cores e aborto. Os ensaios e as pesquisas tiveram inicio em junho de 2012 e finalização em Julho de 2013.

A permanência e força da obra de Frida após todos esses anos, para Camila, está na “intensidade, cores, coragem, amor e igualdade” de seus trabalhos. “Costumo dizer que Frida Kahlo me mostrou quem eu realmente era. O projeto é algo de dentro para fora, é como se as pessoas pudessem ver meu coração através dele, foi a dor da Frida que sarou a minha dor”, comenta ela.

No Brasil e fora dele, ilustradores e pintores já fizeram diversos projetos tendo a mexicana como tema. No teatro, recentemente, a peça Frida-Me levou aos palcos a angústia da artista após o acidente e debateu a questão do papel dos gêneros, tema muito presente em sua obra. Sem contar as diversas exposições sobre a artista nos EUA, Cuba, México, onde até uma marca de cerveja homenageou a artista com um rótulo especial.

Quando justificam a escolha desses trabalhos, assim como Camila, todos trazem na resposta a relação muito pessoal e intensa que Frida teve com sua obra, quase um livro aberto sobre a vida da artista. Essa relação leva os próprios artistas a uma espécie de autoconhecimento – prática que ela mesma exercitava em seus autorretratos, uma de suas marcas.

Na trajetória de Frida, não e difícil entender essa relação entre arte e dor. A artista teve a vida marcada por graves problemas de saúde. Aos 6 anos, teve poliomielite, que deixou sua perna direita mais fina e curta que a esquerda. Aos 18 anos sofreu um grave acidente: o ônibus onde ela estava foi atingido por um bonde elétrico e se partiu ao meio. Frida foi perfurada por um tubo metálico que atravessou o lado esquerdo do seu corpo e saiu pela vagina, além de quebrar duas costelas, clavícula, perna e a coluna vertebral em três lugares.

Fazendo da dor e da descoberta um elemento comum, a jornalista e crítica de arte Priscilla Frank destaca que Khalo é uma das principais influências de um grande número de artistas contemporâneos. “As cores e a estética de seu trabalho despertam curiosidade nas pessoas, artistas ou não. E alguns têm vontade de ressignificar essa dor, mostrar sua visão, e aí vemos Frida sendo remixada em diferentes vertentes”, comenta.
No trabalho de Frida, “a identidade de gênero – e identidade em geral – estão sempre em fluxo”, diz Priscilla. “Havia Frida como uma noiva assustada, Frida como cervos feridos, Frida como massa de raízes emaranhadas, Frida bebê, Frida como rainha. As pinturas de Khalo não contam histórias apenas – elas abrem feridas”.

“Admiro ela ter conseguido colocar tanto tristezas e dramas quanto felicidade em suas pinturas. Acho muito corajoso ela ter usado a si mesma como matéria-prima de seu trabalho. Ela dizia que não fazia arte surrealista porque o que ela pintava era real”, conta a professora de artes visuais Verônica Lima.

Devido à força da história pessoal de Frida e sua postura como mulher – principalmente na relação com o pintor Diego Rivera, com quem manteve um conturbado casamento, com traições de ambos os lados –, ela é constantemente associada ao feminismo. No entanto, pesquisadores avaliam que o trabalho de Frida é uma espécie de prelúdio ao feminismo mexicano, ou seja: embora tenha posições em comum, Frida ainda não estava comprometida com o feminismo, que ganharia força nos anos 1960, após a publicação do livro O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir.

A artista norte-americana Judy Chicago, que em 2010 escreveu um livro sobre Frida e arte feminina, diz que a história da mexicana é muito próxima das mulheres, o que explica essa associação ao feminismo. “O primeiro ponto é que sua história apelou para as mulheres. Depois, houve os movimentos hispânicos nos quais as mulheres também buscavam seu lugar. Em seguida vem a questão da sexualidade aberta, dos gêneros mudando de papéis”, diz a artista.

Como legado, Verônica diz que a mexicana deixa uma produção da “arte por necessidade, como se arte fosse a única possibilidade de se ordenar o mundo interno e o externo, uma maneira de desabafo, de se construir um espelho no qual nos vemos, só que uma visão que a gente constrói”. Considerando que essa necessidade de expressão é o que move os artistas, não fica difícil entender o que atrai a atenção deles para as pinturas e cores de Frida.

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