A levada sentimental de Rosie and Me

O primeiro disco da banda curitibana traz um ponto de mutação na carreira, sem perder o tom intimista de quem sabe combinar guitarras, country e folk com delicadeza

Por Carolina Cunha

Com a superpopulação de camisas de flanela xadrez, as letras em inglês e um guitarrista barbudo, seria possível confundir a curitibana Rosie and Me com mais uma banda de indie rock influenciada pelo passado não muito distante de Seattle.

Mas quando o conjunto utiliza instrumentos como o banjo, ukulelê e a bateria tocada com escovinha, uma sonoridade bem diferente aparece. O som da banda bebe diretamente do country e folk americanos, sem esquecer dos riffs chorosos que reverberam camadas sonoras sutis.

Formada por Rosanne Machado (voz, banjo e violão), Thomas Kossar (guitarra), Rafael Panke (baixo), Márcio Szpaki (violão) e Tiago Barbosa (bateria e percussão), a Rosie and Me começou por acaso.

Em 2006, Rosanne decidiu colocar suas canções na internet, em redes sociais como o Last.fm e o MySpace. Cada vez mais pessoas clicavam nelas, e logo a garota convidou os amigos Tiago e Guilherme para tocar.

O primeiro EP, Bird and Whale, saiu em 2010, revelando preciosidades low-fi e quase artesanais como “Bonfire”, “Old Folks” e “Darkest Horse”, hit que chegou a aparecer num episódio da série de TV americana One Tree Hill.

De lá para cá, algumas coisas mudaram. O grupo assumiu a formação de uma banda completa e, em janeiro deste ano, lançou o primeiro álbum, que nasceu como um projeto independente e sem gravadora.

O novo disco, Arrow of My Ways, traz dez canções que falam de conflitos, relações partidas e esperança. Sobre o trabalho, gravado no estúdio de casa, ela conta que tudo surgiu de um jeito orgânico, mantendo o improviso da criação.

“Não há muito planejamento em cima. Só não queria que soasse algo forçado para agradar pessoas específicas. A ideia era fazer algo simples e não sofisticado. Algumas músicas foram feitas e gravadas ao mesmo tempo, e é algo que acho muito interessante, por fugir de todos os padrões de CD que conheço”, revela.

O clima do primeiro EP ainda está lá. Mas o encontro de Rosanne com o guitarrista Thomas Kossar trouxe mais peso às músicas, e a levada da bateria, embora preserve o tom intimista, mostra uma faceta alegre que pode até render algumas dançinhas.

A banda acabou de lançar o clipe de “I Couldn’t Reach You”, com direção de Caio Rubini e que foi gravado na fazenda de um fã, no Paraná. O vídeo, que em breve chega à internet, mostra o grupo tocando perto de uma fogueira à noite. A cantora conta que o rapaz não teve medo de aceitar o convite, feito em tom de brincadeira: “A gente pode colocar fogo na sua fazenda?”.

A BANDLEADER
Dona de um timbre caloroso, ao mesmo tempo melancólico e açucarado, a vocalista é o coração pulsante da banda. É ela quem escreve as letras, faz os desenhos das capas e assina a produção musical.

Rosanne é uma garota diferente. No palco, fala com voz doce e não esconde a timidez. Canta para derreter corações duros, mas destila bom humor e sabe se divertir. É uma daquelas raras mulheres que podem falar que tocam banjo.

“Sempre tive interesse no banjo, por gostar de Earl Scruggs”, diz a cantora, que reverencia um dos mestres do bluegrass americano como uma de suas influências.

A paranaense também dedilha o violão e dá os primeiros passos na guitarra, apesar de ainda estranhar o peso do instrumento elétrico. “Gosto de qualquer coisa com corda e que produza algum som”, revela.

Na sua eclética playlist, podemos encontrar o country de Buck Owens dividindo espaço com o som intimista dos grupos Bon Iver e Band of Horses.

TURNÊ NOS EUA

Em março deste ano, o quinteto fez sua primeira turnê pelos Estados Unidos, incluindo shows no famoso Hotel Cafe (Los Angeles) e no badalado festival SXSW (South by Southwest), no Texas. A primeira experiência de cair na estrada no exterior não poderia ter sido melhor.

“Fizemos 10 apresentações, e em todas havia um público que estava ali apenas para assistir à gente. Rolou até pedido de música. Para uma banda pequena como a nossa, excede qualquer expectativa”, conta Rosanne.

Nos EUA, a cena alternativa se mostra mais sustentável do que no Brasil, com diversos artistas apostando nessa forma de fazer música e sobrevivendo ao longo das décadas. Situação um pouco diferente do nosso país.

“Não acho que manter uma banda independente aqui seja uma tarefa simples, principalmente por não existir uma cultura de apoio. Tudo que conseguimos foi por mérito e trabalho próprio. É uma pena que exista, no Brasil, um pensamento imediatista de investir tudo ou nada em novas bandas, sem a preocupação de fundar uma base para que elas possam crescer”, comenta Rosanne.

A última novidade da banda é o lançamento do cover de “Ready to the Floor”, do grupo inglês Hot Chip. Com autorização deles, a banda curitibana fez uma versão bem pessoal da música. A escolha foi simples: a canção já estava no set list da Rosie and Me, então por que não gravar?

“Como disse, não é nada planejado. Gostamos de ser fieis a nós mesmos, sem grandes pretensões de hits e músicas comerciais. Enquanto alguém se identificar com a música, seu propósito terá sido cumprido”.

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