O gogó cronista de Rodrigo Ogi

Indicado ao VMB Brasil, rapper se destaca por cantar histórias das ruas de São Paulo

Por Carolina Cunha, publicado no portal Saraiva Conteúdo em 20. 09. 2012

Entre artistas badalados que concorrem este ano ao Vídeo Music Brasil, o VMB, premiação da MTV, três letras chamam a atenção: Ogi. Indicado à categoria Melhor Artista Masculino, o rapper ainda é um nome que batalha por seu espaço.

Rodrigo Ogi, 32 anos, encara este momento com pés no chão. “Só de ter sido indicado já fico feliz”, diz o MC paulistano. Esta não é a primeira vez que ele concorre ao VMB. No ano passado, foi indicado na categoria Rap. Não levou, mas ganhou fama como uma das revelações de 2011.

E foi em 2011 que Ogi despontou com o trabalho independente Crônicas da Cidade Cinza. Seu primeiro álbum solo nasceu quase artesanal, com bases gravadas no quarto de casa. A capa chama atenção pelo grafite da dupla Osgemeos, apelidados por Ogi de “Osgênios”. Já as tracks contaram com a bênção de amigos beatmakers como Lurdez da Luz, Rodrigo Brandão e DonCesão.

Cronista da cidade, Ogi canta histórias que vê na maior metrópole da América Latina. Nas ruas paulistanas, o MC busca inspiração para entrar na pele de motoboys, policiais, assaltantes, pichadores ou gente que amanhece de ressaca na sarjeta. Um rolê que procura a palavra certa para diferentes vozes, mas que não cai no fatalismo. No concreto gigante, é a vida que segue, com suas ironias, portas fechadas e alegrias.

“A São Paulo que eu vejo é a cidade mais bonita do Brasil. Quem não a conhece se assusta e não vê beleza. O caos me inspira. A correria, os arranha-céus, a cidade que nunca dorme é uma coisa bonita de se ver. Não conseguiria viver em outro lugar”, conta Ogi.

Ao primeiro play de seu disco, quem pede licença é a voz do dramaturgo Plínio Marcos, sampleada da rara bolacha “Plínio Marcos em Prosa e Samba”, de 1974. A narração é quase um abre-alas para entrar na toada realista do rapper.

“Eu conto histórias das quebradas do mundaréu / Lá onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos / Falo da gente que sempre pega pior, que come da banda podre, que mora na beira do rio e quase se afofa toda vez que chove (…)”.

Assim como o dramaturgo, Ogi também adora samba de raiz e por muito tempo ficou aficionado pelo disco, que conta com a participação de sambistas da velha guarda paulistana, como Geraldo Filme.

“Essa fala (de Plínio Marcos) casou perfeitamente com o que eu estava fazendo. Escuto muito samba antigo, gosto tanto quanto o rap. Estou tentando aperfeiçoar a voz, quero fazer aulas de canto porque um dia pretendo lançar um disco só de samba. Quando eu me sentir capaz, um dia eu vou lançar”, brinca o rapper.

Para Ogi, muita letra de samba e livros renderiam raps “nervosos”. Não por acaso, um dos seus autores preferidos é o escritor paulista João Antônio, mestre em contar a saga de personagens marginalizados da alta malandragem paulista. Ele também gosta de Marcelo Rubens Paiva e de quadrinhos, como a graphic novel Black Hole.

O rap começou cedo na vida de Ogi. Criado no Jardim Celeste, zona sul da cidade, em 1994, ele já experimentava as primeiras rimas e escutava veteranos do gênero como Os Racionais, Thaíde e Public Enemy. Faltou pouco para ele desistir de sua carreira musical.

Gostava das ruas e, um dia, deixou tudo de lado para pichar muros e andar com a galera da pichação. “Como muitos garotos, queria fazer algo rebelde e ser visto também”, diz.

Foi somente em 2002 que ele voltou a compor, e logo se uniu aos companheiros do grupo Contrafluxo. A culpada de tudo é uma música do rapper Parteum, “Sétimo Volume da Enciclopédia Letra H”, que fez a cabeça de Ogi.

“Me identifiquei muito com aquilo e disse: tá na hora de eu começar a escrever. Era um rap que não era gangsta, tinha protesto, mas era mais próximo à minha realidade. Cresci num lugar de periferia, mas a violência não fazia parte de mim.Tive amigos que morreram, mas nunca fui do crime.”

Hoje, Rodrigo aproveita os holofotes que o rap atraiu nos últimos anos, com nomes como Emicida, Criolo, Lurdez da Luz, Kamau, entre outros, para levar sua rima adiante.

“O rap hoje tem mais reconhecimento. Foram os caras lá atrás que pavimentaram essa estrada. O Emicida conseguiu mais ainda. Eu estava desmotivado, era difícil ter um retorno financeiro. Todo mundo que faz rap quer viver da sua arte. Quando vi o sucesso do Emicida, eu vi esperança.”

De amigo, Emicida virou parceiro de negócios. À frente do selo Laboratório Fantasma, ele apadrinhou o talento do rapper e o convidou para o casting de músicos da gravadora. Na casa, Ogi pretende lapidar sua criação e contar com o apoio de produtores experientes.

Sobre o próximo trabalho, já tem muita coisa escrita, mas prefere seguir o fluxo natural da criação, sempre com papel e caneta às mãos. Quer cantar cada vez mais. “Estou escrevendo e lendo muita coisa. É que nem escrever um livro. Estou preparando os capítulos do disco”.

Rodrigo, que vivia de bicos, de telemarketing a oficinas de rap na Febem, hoje consegue viver da sua música, principalmente com shows em clubes. Do spray, resta o gosto pelo grafite, que curte fazer de vez em quando, apenas para se divertir.

“Quando escutei o rap pela primeira vez, já me tocou de cara. Parece que abriu meus olhos para uma coisa que não enxergava. Aquela opressão que você sente, mas não sabe como lidar com isso. Muitas vezes, rap foi mais importante do que a escola. Não tem como explicar… ou você ama, ou não sente nada. No meu caso, foi amor à primeira vista.”

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