Os delírios de Anne Sexton no tablado

Montagem teatral descortina vida da poetisa americana Anne Sexton no CCBB de Brasília e Rio de Janeiro

Publicado no site Saraiva Conteúdo em 27. 01. 2013
Por Carolina Cunha

“Não se mate. Um dia seus poemas podem ser importantes para alguém”. O conselho do psiquiatra foi levado a sério pela norte-americana Anne Sexton, então com 30 anos. Um ano depois, ela descobriu as delícias da máquina de escrever e começou a publicar seus textos em revistas literárias. Em 1967, a poetisa seria a ganhadora do prêmio Pulitzer.

Anne foi vanguardista ao inserir tabus femininos na poesia, sendo uma das precursoras da poesia confessional dos Estados Unidos que despontou nos anos 60 e 70. Agora, sua história inspirou a peça “Sexton”, em cartaz na cidade de Brasília.

O texto da dupla Julianna Gandolfe e Helena Machado foi o vencedor do Brasil em Cena, projeto do CCBB que apoia a encenação de obras inéditas com novos dramaturgos e atores. Depois da capital federal, a peça segue para uma temporada no Rio de Janeiro.

Quem assina a direção do espetáculo é o brasiliense Rodrigo Fischer, 31 anos. O diretor teve apenas dois meses para costurar todos os fios da montagem e definir o elenco de jovens atores locais. E para entrar no universo feminino e no mundo de uma escritora ainda desconhecida no Brasil, mergulhou fundo na sua biografia.

“Anne era uma poetisa muito forte. A experiência de ser mulher refletia nos textos, seja nos papéis de mãe, amante ou artista. Tive que dialogar com tudo isso e tentar entender a cabeça desta mulher complexa e quase inacessível, para trazer à tona a força que ela imprime na poesia”, diz o diretor.

No palco, de cabeça raspada e um cigarro nas mãos, a atriz Jessica Cardoso entra na pele da escritora que sofria de depressão e começou a escrever como terapia. Com competência, consegue avançar do lado ensolarado para o autodestrutivo. Encarnar uma personagem tão densa não é pouco para uma atriz que tem apenas 20 anos.

O elenco da peça, composto por jovens estudantes de artes cênicas, foi orientado por Rodrigo Fischer a manter o equilíbrio das emoções. “O nosso desafio foi trazer uma maturidade na atuação. A tendência do jovem é querer ser mais visceral e expressivo. Tentei retirar excessos. Eles estão conseguindo muito bem desenhar isso, num registro calmo e mais realista. Não queria que o público taxasse Anne de dramática. É muito fácil cair nisso”, diz o diretor.

A escritora Anne Sexton
Em cena, a montagem ganha uma roupagem mais livre, na qual vida pessoal e arte se entrelaçam. Temas como a infidelidade, o papel de mãe, a amizade com outros poetas ou o lado B dos remédios misturam-se a vídeos que projetam no cenário o universo psicológico de Anne, com imagens de memórias da infância, trechos de poemas e movimentos de fumaça.

Dona de uma poesia íntima, que discorre sobre detalhes do dia a dia, a poetisa participou de oficinas de criação com Robert Lowell e John Holmes. Morando na cidade de Boston, teve um círculo de amigos que inclui as escritoras Maxine Kumin e Sylvia Plath, a quem dedicou poemas. O primeiro livro de antologias, To Bedlam and Part Way Back, foi publicado em 1960 e rendeu boas críticas, lançando as bases para uma carreira meteórica.

Os textos de Anne Sexton ainda não foram publicados em português, mas nas livrarias é possível encontrar livros como The Complete Poems, Transformations e Anne Sexton: A Self-Portrait in Letters, que traz um retrato de sua vida baseado nas cartas da poetisa.

Certo dia, Anne escreveu: “A poesia é o oposto do suicídio”. E numa manhã de 1974, aos 45 anos, ela entrou numa garagem, ligou o motor do carro e inalou gás carbônico, colocando seu nome no sinistro rol de escritoras suicidas, como Virginia Woolf, Sylvia Plath e Ana Cristina César.

Na peça “Sexton”, além de conhecer a vida pessoal dessa poetisa, muitos espectadores poderão ter a experiência de descobrir suas palavras pela primeira vez. “O que mais me chama atenção no texto é sua vontade destemida de viver, transgredindo muita coisa. Por mais que fosse contraditório, ela queria muito se relacionar com a vida. Essa intensidade foi marcante. Até o suicídio dela foi violento, belo e poético”, acredita o diretor de teatro.

SERVIÇO

Sexton

CCBB Brasília
De 10/01 a 03/02
De quinta a sábado, às 21h. Domingo, às 20h
Centro Cultural Banco do Brasil – SCES, Tr. 2, Conjunto 22 – Asa Sul

CCBB Rio de Janeiro
De 26/02 a 31/03
Horários ainda não divulgados
Rua Primeiro de Março, 66 – Centro – Rio de Janeiro

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