Os personagens ranzinzas da literatura

Alguns dos personagens mais interessantes da literatura têm uma coisa em comum: o mau humor

Publicado no site Saraiva Conteúdo em 16.03.2013
Por Carolina Cunha

O dia está ensolarado e você pode sentir a brisa da manhã. Mas ao cumprimentar um amigo, ele responde “Bom-dia por quê?”. Se você já cruzou com um mal-humorado no caminho, fique tranquilo. Eles estão em qualquer lugar – nas padarias, nas empresas, nas escolas e, claro, também nas páginas dos livros.

Os personagens ranzinzas da literatura usam sua particular visão de mundo para enfeitar as histórias com nuvenzinhas negras. E isso pode tornar tudo mais interessante.

O SaraivaConteúdo listou abaixo alguns dos personagens mais mal-humorados dos livros.

Ebenezer Scrooge – Um Conto de Natal, de Charles Dickens

Apesar de rico, Ebenezer Scrooge não era exatamente um lorde inglês. Charles Dickens o descreve como mesquinho, unha de fome, áspero como uma pedra de amolar. Ninguém se atreve a lhe perguntar as horas. Palavras como gentileza e amor o fazem arrepiar. O pior era o Natal. Desta vez, ele ainda receberia visitas de espíritos natalinos que vieram para despertar sua bondade. Uma prova de fogo para qualquer sovina.

Henry Chinaski – Misto Quente, de Charles Bukowski

A primeira coisa que Henry Chinaski escutou de sua avó foi “Enterrarei todos vocês!”. Já adulto, coleciona subempregos e o desprezo pela sociedade. Mas nem tudo está perdido. Ao descobrir que é feliz quando bêbado, decide ficar assim o tempo todo. O alterego de Bukowski é capaz de recusar um piquenique em família para voltar para a solidão de um cubículo e beber até dormir.

Lawrence Breavman – Brincadeira Favorita, de Leonard Cohen

O músico Leonard Cohen nos apresenta Lawrence Breavman, o filho único de uma família de Montreal. Sua mãe é neurótica. Ele, um adolescente com tédio e tempo de sobra para pensar. Suas maiores distrações são as mulheres e a literatura. Quando adulto, sente necessidade de dizer algo esperto e profundo – o tempo todo. Por isso, mesmo o mais paciente dos amigos se aborrece quando ele destila seu veneno existencial. Seria um gênio da filosofia ou uma companhia intelectual indigesta? Você escolhe.

Bentinho – Dom Casmurro, de Machado de Assis

A alcunha significa algo como “recluso”, “cabeçudo”, “teimoso”. Quando recebeu o apelido de Dom Casmurro, Bentinho achou uma verdadeira injustiça. Sempre fora feliz com Capitu, sua paixonite da adolescência, com quem veio a se casar. Pelo menos até a chegada do primeiro filho. Desconfiava que o garoto não era seu. Com o tempo, começou a ficar calado e aborrecido. A esposa não entendia por que Bentinho estava tão chato. Mal sabe ela que o ciúme pode ser bem pior do que o mau humor.

Zazie – Zazie no Metrô, de Raymond Queneau

O que é mais importante para uma adolescente de 12 anos? O penteado do Justin Bieber ou uma volta na cidade? Tudo que a francesinha Zazie queria era usar uma calça jeans pela primeira vez e andar de metrô. Só que a garota fofa do interior que veio passear em Paris deu azar. Uma greve nos trens deixou a jovem em fúria e, para surpresa do tio, ela sabia os xingamentos da última moda – mal completa uma frase sem um palavrão.

Horácio Oliveira – O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar

Horácio é um argentino que vive em Paris. Nem a sua aventura amorosa com Maga, as reuniões intelectuais com o Clube de Serpente, o jazz que tanto amava ou os passeios sem destino levavam embora o tédio que sentia. Buscava uma resposta para a existência. Pensava em coisas como: qual seria o sentido da mesmice e da imbecilidade do presente? Também queremos saber.

Lily – Um Trabalho Sujo, de Christopher Moore

Nesta história de fantasia com humor negro, o protagonista é o dono de um brechó que recebe do destino a ingrata missão de ser um Mercador da Morte. Mas é sua funcionária quem brilha com a ideia. Lily é uma jovem gótica de cabelos acaju. Vestida de preto, das botas ao lápis de olho, ela está convencida de que é a própria Morte. Quando bate uma preguiça da humanidade, Lily gosta de relaxar. Sai da loja, fuma um cigarro e olha para o abismo.

Holden Caulfield – O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger

Pense em como seria o humor de uma pessoa que acha que tudo é uma droga ou é o pior. Este é Holden Caulfield, protagonista do livro de Salinger. Um ícone da rebeldia, o jovem de 17 anos resolveu fazer um balanço da vida e usa de muita ironia para enfrentar quem cruza seu caminho.

Wilson – Wilson, de Daniel Clowes

Ele é um quarentão prestes a ficar careca. Abandonado pela mulher, Wilson muda-se para uma nova cidade. Os vizinhos logo percebem sua falta de aptidão social. Intrometido, aborda estranhos na rua apenas para reclamar sobre o mundo. Faz extensos monólogos e, quando alguém diz o que pensa, ele logo boceja. Para a ex-cunhada, chegou a mandar um pacote de fezes pelo correio. A única companhia que adora passear com ele parece ser o seu cão.

Rê Bordosa

“Eu sou uma barata que resistiu a todos os inseticidas” e “Não nasci para ser a cura, e sim a doença” são algumas frases disparadas por Rê Bordosa, a ácida personagem de HQ criada por Angeli. Ela é uma hippie que não viu o tempo passar e acha que a vida se resume a sexo, drogas e rock´n´roll. Todo o resto a deixa mal-humorada na banheira de sua casa.

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