As inovações do teatro de Shakespeare

Publicado no portal Saraiva Conteúdo
23 de abril de 2014

No mês em que se comemoram os 450 anos do autor, relembramos as inovações de um dos principais mestres da dramaturgia mundial

No século 16, na Inglaterra, no período da rainha Elizabeth, um grupo de jovens escritores começou a escrever peças e deu início ao chamado teatro elisabetano, que se tornou muito popular. Em 1591, o jovem William Shakespeare decidiu sair da cidadezinha de Stratford-upon-Avon e se mudou para Londres, onde assimilou o que já havia sido feito no teatro e potencializou sua criação. Tornou-se ator, escreveu peças e virou diretor do Teatro Globe, o mais prestigiado da capital. Sua trupe era considerada a número 1 da cidade e se apresentava para todo tipo de plateia, conseguindo entreter ao mesmo tempo os nobres e o povo.

Filho de um comerciante, Shakespeare nasceu em abril de 1564 e morreu aos 52 anos de idade. Foi autor de 38 peças (entre históricas, comédias e tragédias), como Hamlet, Romeu e Julieta, Otelo, Macbeth, Sonho de Uma Noite de Verão, Ricardo III, Rei Lear, A Megera Domada, A Tempestade, entre outras. Shakespeare se tornou o dramaturgo mais conhecido de todos os tempos, tendo influenciado toda a produção teatral que viria depois dele. Fora dos palcos, escreveu 154 sonetos e uma variedade de outros poemas.

No mês em que se comemoram os 450 anos do nascimento do bardo inglês, o AlmanaqueSaraiva fala sobre as inovações do teatro shakespeariano que até hoje estão presentes nas produções teatrais. Como o próprio Shakespeare dizia: “O mundo é um palco e todos os homens e mulheres são meros atores”.

RUPTURA DA TRAGÉDIA CLÁSSICA

Considerado o berço do teatro ocidental, a antiga Grécia produziu o drama trágico. Estabelecida a partir de Aristóteles, a lei das três unidades – ação, espaço, tempo – é considerada regra obrigatória para a encenação da tragédia clássica. Mas Shakespeare rompeu essa lei em peças dramáticas como Hamlet (escrita entre 1599 e 1601) e Otelo (escrita por volta de 1603) e foi criador do conceito da cena moderna.

“A unidade do lugar é a que se rompe com mais evidência. Enquanto as peças gregas e latinas, até então, desenvolviam-se em um único espaço, normalmente em frente a um palácio, em Shakespeare os cenários são múltiplos. Com a unidade de ação, a ruptura também é clara: enquanto no drama grego a ação deve ser centrada no personagem principal – rei, rainha ou outra figura nobre –, na dramaturgia de Shakespeare personagens secundários têm autonomia de confabular e determinar novos rumos. Cai por terra também a unidade de tempo. Na tragédia grega desenvolve-se a trama no período de um dia, porque está centrada na solução do conflito”, observa Paula Mathenhauer Guerreiro, pesquisadora em Artes da Cena na Unicamp.

MESTRE DAS COMÉDIAS E DO AMOR

No teatro elizabetano, os autores também começaram a explorar novos gêneros como as comédias românticas e as tragicomédias. Um dos maiores talentos de Shakespeare era escrever cenas cômicas. Ele era dono de um humor sagaz e irônico, com diálogos engraçados que surgem muitas vezes em meio à desgraça alheia.

“Antes de Shakespeare, principalmente no teatro grego, você tem a tragédia e a comédia sendo tratadas de formas separadas. O que Shakespeare faz é observar que na vida a comédia e a tragédia não andam separadamente, mas são simultâneas. Por exemplo, em um velório enquanto uns choram sobre o caixão, outros podem estar na sala ao lado contando anedotas – essa é a realidade da vida. Shakespeare coloca essa realidade lado a lado no palco”, diz Ronaldo Marin, professor do Instituto de Artes e Multimeios da Unicamp e diretor do Instituto Shakespeare Brasil.

As idas e vindas das paixões também interessavam o bardo. Shakespeare gostava de fazer piadas com temas como o amor e o casamento. As peças A Megera Domada, Sonho de Uma Noite de Verão e Muito Barulho por Nada, escritas no final dos anos 1590, trazem casais que se desencontram e sonham em viver felizes para sempre. São as ancestrais das atuais comédias românticas do cinema.

UM INVENTOR DE NOVAS PALAVRAS

“Em se tratando de invenção, o que Shakespeare foi mesmo foi um grande construtor de neologismos. Quando ele precisava de uma palavra e ela não existia, ele simplesmente a inventava”, comenta Marin.

Shakespeare usava um vocabulário muito vasto. Naquele tempo, a língua inglesa ainda estava em formação e contava com cerca de 150 mil palavras. O dramaturgo usou em seus textos quase 20 mil palavras e cunhou mais de três mil novas termos.

Até Machado de Assis reconheceu os méritos do vocabulário shakesperiano, não só na criação de palavras, mas na forma de falar de seus personagens. “O Império Britânico passará, a república Norte-Americana passará, mas Shakespeare permanecerá. Quando não se falar mais inglês, falaremos Shakespeare”, comentou certa vez o escritor brasileiro.

“A grande variedade de estilos marca Shakespeare. Ele provocou muitas inovações na linguagem. Introduziu palavras novas na língua inglesa, adaptou palavras de dialeto e usou várias formas da linguagem popular. Em muitas peças ele usa palavras bastante chulas, com muitas referências sexuais e insultos. Mas também produziu uma linguagem pomposa e diálogos com poesia de altíssima qualidade”, diz John Milton, professor de Literatura Inglesa da USP.

Para o professor, o inglês daquela época hoje pode soar rebuscado. “As peças são difíceis com a linguagem arcaica. Muita gente abre Shakespeare e não consegue entender nada. Por isso as adaptações podem ser uma boa porta de entrada para seu universo. Mas ele ainda continua atual. Apesar das peças terem sido escritas há séculos atrás, ainda são muito pertinentes e trazem temas que nos preocupam até hoje ”.

PERSONAGENS HUMANIZADOS

A dramaturgia shakespeariana é conhecida por sua extensa galeria de personagens emblemáticos como Hamlet, Ofélia, Otelo, Iago, Cleópatra, Rei Lear, Macbeth, Desdêmona, Rosalinda, entre outros.

Shakespeare criou mais de mil personagens, muitos são dotados de uma dimensão interior nunca vista antes nas histórias. Da pena do autor saíram diálogos que discutem temas da filosofia, da teologia, da metafísica.

Seus personagens vão do desespero à felicidade, em tramas que falam de amor, loucura, guerra, disputa pelo poder, política e liberdade. Shakespeare criou alguns dos primeiros anti-heróis da literatura, protagonistas que não possuem vocação heroica, tem um quê de malvado, podendo realizar a justiça por motivações egoístas.

“Todos os grandes heróis trágicos dele tem falhas com as quais podemos nos associar, como o ciúme de Otelo, a ambição de Macbeth, a atração pelo poder de Ricardo III. A procrastinação de Hamlet, e na tragédia de Cleópatra, Marco Antônio é um homem poderoso que larga tudo por amor. Todos os personagens têm essas características muito humanas”, diz Milton.

UM MARCO DA MODERNIDADE

O mundo de Shakespeare era um mundo em transição, transformado pelo Renascimento, as Grandes Navegações, a filosofia de Maquiavel e o heliocentrismo de Copérnico. Segundo o crítico norte-americano Harold Bloom, as criações do dramaturgo expressaram o conhecimento e o espírito da época moderna, que definiu a condição humana como entendemos hoje.

Para Marin, os personagens deixam de ser guiados pelo sobrenatural e assumem uma atitude crítica diante de suas vidas. “Shakespeare foi pioneiro neste profundo mergulho no abismo dos mistérios da alma humana. Nem mesmo o teatro grego atingiu tamanha profundidade, pois nele, os seres humanos são comandados pela vontade dos deuses e do destino. Em Shakespeare, não. O homem é o responsável pela construção do próprio destino. Nada mais moderno. Essencialmente o ser humano permanece o mesmo; por isso Shakespeare permanece tão atual”.

Em Hamlet, por exemplo, o príncipe Hamlet encontra o fantasma do pai, que clama por vingança contra seu assassinato pelas mãos do próprio irmão, Cláudio, o novo ocupante do trono da Dinamarca e do coração da rainha. O jovem príncipe mergulha em profunda melancolia e para provar a culpa do rei, decide se passar por louco e faz uma trupe de atores encenar a morte de seu pai diante de toda a corte.

“Ser ou não ser, eis a questão”, diz Hamlet, manifestando sua angústia com a existência, alguém que não sabe para onde ir e nem o quer. A peça é uma tragédia de vingança, onde a tensão gira em torno de um tormento pessoal. Na trama, a reflexão supera a ação e temas como a solidão do homem, o autoconhecimento e o indivíduo que toma consciência de si aparecem pela primeira vez. O conflito hamletiano destoa das tradicionais peças do gênero que eram encenadas até então, refletindo uma nova maneira do homem se relacionar com o mundo.

Marin lembra ainda a primeira frase da peça: “Quem está aí?”. “Dessa forma, ele inaugura todo o pensamento da modernidade, que persiste na busca deste eu interior: ‘quem está aí? Quem é esse ser que pensa, sente e fala? Quem sou eu?’ Não sem motivo, para Freud, Shakespeare é o autor do grande teatro da mente”.

Para Paula, o legado de Shakespeare é inegável, mas é difícil definir com exatidão sua influência na produção contemporânea. “Em se tratando de uma tradição à qual sempre se retorna, ainda que seja para se reinventar, Shakespeare influencia o teatro que se faz em qualquer época. Pontuar essas influências, no entanto, é muito difícil no contexto híbrido e plural da cena contemporânea”.

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  1. Perfectly pent written content, appreciate it for entropy. The earth was made round so we would not see too far down the road. by Karen Blixen.