“Queria fazer um Conan brasileiro”, diz Affonso Solano

Série de fantasia nacional ‘O Espadachim de Carvão’ traz guerreiro nerd

Publicado no site Saraiva Conteúdo em 03. 09. 2013

Por Carolina Cunha

Um jovem guerreiro deixa uma caverna para combater o mal num mundo repleto de forças ocultas e hostilidade. Isso parece uma saga épica de algum quadrinho de aventura gringo?

“Eu quis criar um Conan brasileiro”, diz o escritor carioca Affonso Solano sobre o personagem Adapak, herói de Espadachim de Carvão, seu livro de estreia lançado este ano pela editora Fantasy/Casa da Palavra.

Adapak vive em Kurgala, um mundo abandonado por Quatro Deuses. Ele é um semideus com a pele negra e treinado pela doutrina dos Círculos de Tibaul, mortal técnica de espadas. Aos 19 anos, Adapak vê um misterioso grupo de assassinos invadir sua ilha sagrada. De repente, é forçado a deixar o lugar onde cresceu isolado e encarar o mundo pela primeira vez.

Apesar de pitadas medievais, Solano quis criar um universo de ficção próprio, com continentes, cidades, criaturas e uma nova mitologia. Ele guarda em casa uma pasta para cada espécie, com desenhos e textos sobre suas características. “Já tem muitas histórias excelentes com elfos, ogros, vampiros e dragões, e eu quis criar algo novo. A gente absorve muita mitologia estrangeira, eu acho bacana, mas quase não temos mitologia brasileira”, observa o escritor.

Solano queria que o livro fosse como um filme de aventura, repleto de ação. Apesar de ser fã de romances épicos, como O Senhor dos Anéis, uma de suas maiores influências foi a HQ de Conan, o Bárbaro (ao lado de Stephen King, seu escritor favorito, Arthur Conan Doyle, Edgar Allan Poe e os livros de aventura de Steven Jackson e Ian Leviston).

“Eu gostava mais da aventura direta. Não que eu não goste de romance, mas sou muito prático e sempre curti essa coisa da capa e espada”. Junta-se a isso sua paixão por lutas. “Eu sempre gostei muito de artes marciais. É uma coisa bem nerd, né?”.

Sua maior inspiração para inventar Kurgala veio da mitologia da Suméria, considerada a primeira civilização na História da Humanidade. Tanto que o nome Adapak é uma homenagem a Adapa, o primeiro homem do mundo. Já a personagem T’arish é um anagrama para Ishtar, deusa suméria da sexualidade e guerra.

Autor Affonso Solano(1)

O autor Affonso Solano

“Não sou o Tolkien, mas criei uma língua a partir da cultura suméria. Eles tinham um conhecimento astronômico rico, sabiam de constelações que a gente hoje só sabe por telescópios eletrônicos, então, era uma civilização muito misteriosa. Eu peguei a essência e decidi criar um mundo crível”.

Apesar de enfrentar inimigos grandalhões, Adapak possui a ingenuidade de um adolescente que nunca saiu de casa. Para muitos, o espadachim pode soar meio tapado. Na verdade, Affonso queria que seu herói tivesse o que ele chama de “a essência do nerd”.

“Adapak é um cara que consegue vencer 20 pessoas ao mesmo tempo com as espadas, mas ele também é muito bobo e inocente. Eu quis mesmo resgatar essa essência do nerd, um cara que fosse diferente do resto e se sentisse excluído, com uma visão muito preta e branca do mundo”, diz o escritor.

Assim como nerds, Adapak também gosta de ler e o livro cita frases da fantasia “As Aventuras de Tamtul e Magano”, ficção imaginada por Solano.

“Eu criei um mundo dentro do mundo. Adapak não podia sair da caverna e vivia através dessas histórias, que são bem aventurescas, os heróis são musculosos e as mocinhas vivem em castelos. Queria que quando ele saísse da caverna e achasse que o mundo fosse daquele jeito, super bonito e romântico, e na verdade não é. Kurgala é um lugar bem ruim…”.

A experiência deu certo, tanto que muitos leitores cobram a publicação das histórias de Tamtul e Magano. O escritor considera a possibilidade, mas acredita que “parte da magia é você ficar tentando adivinhar como são essas histórias”.

NERD WAY OF LIFE

Solano tem 31 anos e ficou conhecido pelo podcast Matando Robôs Gigantes, do site Jovem Nerd, onde tem o papel de fazer piadas e ser o galã da turma. É colunista do Tech Tudo, site de tecnologia e games, e também trabalha como ilustrador. Tanto que ele mesmo criou as ilustrações que aparecem na versão impressa de seu livro.

Espadachim CAPA

É um nerd assumido desde moleque, quando devorava quadrinhos de super-heróis e filmes de ficção científica. Sua primeira lembrança como contador de histórias foi quando ele brincava com os irmãos de Comandos em Ação e era ele quem inventava os mundos paralelos. Depois, jogou RPG, mas com uma ressalva: era o cara que gostava de ler os livros, as enciclopédias de monstros, as regras e a construção de personagens. Jogar para quê?

Da ideia inicial ao livro impresso foram dez anos. Em 2001, junto com amigos de um cursinho pré-vestibular, Solano criou um projeto para o site Omelete que apresentava uma história interativa. Com o fim da empreitada, decidiu que reformularia aquela história em formato de livro.

Para o ano que vem, ele quer lançar o segundo volume da série, que deve vir com mapas de Kurgala. Enquanto isso, pretende tirar da gaveta alguns rascunhos para futuros livros de ficção científica e terror. Uma das vontades é escrever um thriller com o Saci Pererê, que nem Stephen King chegou a imaginar.

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