Revisitando William Burroughs, padrinho da geração beat

Publicado no portal Saraiva Conteúdo
04 de fevereiro de 2014

O “velho Bill” faria 100 anos esta semana. Para especialistas, o escritor ainda é pouco estudado, e sua influência sobre a cultura pop dos anos 1970-1990, pouco dimensionada

POR CAROLINA CUNHA

Morto em 1997, aos 83 anos, o escritor William Burroughs completaria 100 anos neste 5 de fevereiro. No entanto, mesmo sendo considerado o padrinho da geração beat, seu universo ainda não foi totalmente investigado. A academia valoriza pouco a escrita de Burroughs; por aqui, livros importantes da sua obra ainda não foram publicados, e sua influência na cultura pop dos anos 1970-1990 ainda é pouco dimensionada.

“Burroughs era excêntrico, ousado, transgressivo, espantoso. Os termos valem para ambos, autor e obra”, afirma o poeta e ensaísta Claudio Willer, autor da obra Geração Beat. Por ser o mais velho da turma que incluía Allen Ginsberg, Lucien Carr e Jack Kerouac, Burroughs inspirou essa geração. Era ele quem emprestava os livros e levava os beats para transitar na marginalidade; no entanto, segue sendo pouco estudado pela academia.

“Acho que não se fala muito dele. Me admira que nas universidades brasileiras você não veja ele sendo estudado. Você vê os clássicos sendo estudados. Mas os Beats foram considerados literatura underground. Ainda acham que é uma literatura menor, porque eles cutucam a ferida. Estudá-los é mexer num vespeiro. Infelizmente [esse universo] é pouco explorado. Eles foram os pais dos protestos e da contracultura”, alega Flávia Andrea Rodrigues Benfatti, que pesquisa sobre os beats.

Ao lado de Na Estrada, de Kerouac, e Uivo, de Ginsberg, o romance Almoço Nu, escrito em 1959 por Burroughs, é considerado uma obra clássica da geração. Foi escrito quando ele morava em Tânger, no Marrocos. Marcado por uma narração não linear, o livro que narra a saga de um viciado chocou a sociedade norte-americana, e sua venda chegou a ser proibida no país. O processo judicial contra a censura dele é um dos mais emblemáticos do século 20.

“Drogas” talvez seja a primeira palavra que vem à cabeça quando se pensa em Burroughs. Não à toa, um dos seus apelidos era “farmácia ambulante”. Seu livro anterior, Junkie, já havia abordado o tema das drogas. Já Almoço Nu tem uma escrita labiríntica e visceral, que retrata as viagens e alucinações com crueza. O fato é que ninguém havia escrito daquele jeito antes.

“O impacto do livro foi enorme e duplo. Literariamente, ninguém havia escrito assim, através daquela série de fragmentos selvagens. E representou o fim da censura – ao final do processo, em 1963, concluiu-se que, se [a obra] podia [dizer] tudo aquilo, todas aquelas perversões, então não fazia sentido proibirem obras literárias. Ou seja, desde então, ‘liberou geral’”, diz Willer.

Para Flávia, Almoço Nu não é um livro fácil. “Ele mostra a realidade nua e crua. Tem uma cena que me impactou tanto que demorei cinco noites para conseguir dormir. A sensação de escatologia e paranoia é forte. Ele descreve o uso das drogas, mas não faz apologia. Por mais que vivesse o carpe diem, ele sabia do pesadelo do vício”.

Burroughs é um autor que ainda apresenta lacunas na publicação de sua obra no Brasil. Alguns dos livros mais importantes do autor seguem sem ser traduzidos, o que dificulta o acesso e a compreensão do seu trabalho.

Willer cita alguns títulos importantes, como The Wild Boys (“Os Garotos Selvagens”, em tradução livre); os livros da época dos cut-up, como Nova Express e The Ticket That Exploded; o coletivo Minutes To Go; Exterminator!, sobre o emprego de que ele gostou mais, como exterminador de insetos; e o livro de entrevistas The Job. Além disso, há as obras da sua reaparição, quando achavam que já havia encerrado a produção: a trilogia composta de Cities of the Red Night, The Place of Dead Roads e do pseudowestern The Western Lands.

Os livros escritos com o método cut-up dizem muito sobre a criatividade de Burroughs. Trata-se de uma técnica literária de colagem, na qual uma frase ou um conjunto de textos é cortado literalmente em pequenas partes que depois são reorganizadas, de modo a criar algo novo. Na época do lançamento de Almoço Nu, Burroughs começou a experimentar o procedimento, que foi usado nos anos 1960.

“A intenção era libertar a linguagem. Como em sua poética e visão de mundo a linguagem produz realidade e constitui o indivíduo, seu uso não instrumental e não significativo promoveria a libertação do indivíduo e a transformação do mundo. Os procedimentos induziam alucinações ou visões. Ele, o artista Bryon Gisin e o matemático Yan Sommerville tocaram outro lado da realidade, me parece”, comenta Willer.

CULTURA POP

Além de ter sido considerado o padrinho de uma geração, Burroughs viveu intensamente as transformações das décadas de 1960 a 1990. Ganhou o respeito de intelectuais e diversos artistas como Laurie Anderson, Patti Smith, David Bowie (adepto do cut-up) e Madonna, e foi chamado de “vovô do punk”. Ainda na música, chegou a fazer uma parceria com Kurt Cobain, que era seu fã declarado.

“O rock era a música do protesto, e Burroughs fez parte influenciando o Nirvana, Laurie Anderson… [Além disso], participou de vários grupos e discos. Ele se tornou um líder da geração dos anos 1970, 1990. Todo mundo queria que ele participasse”, esclarece Flávia.

No cinema, o autor em pessoa fez uma participação em Drugstore Cowboy, filme de 1989 de Gus Van Sant. Além disso, Almoço Nu foi adaptado em 2005 para as telonas pelo cineasta David Cronenberg. Burroughs também gostava de pintar e fotografar.

Para Flávia, compreender toda a obra de Burroughs significa entender todo esse contexto histórico e de referência. “Antes de ler uma obra beat, procure entender o contexto primeiro; saber o que é a indústria cultural e entender o que estava acontecendo na década de 1950 nos EUA. Aí, você entende o que os caras estão falando e o propósito. [É preciso] olhar para o período e ver qual é a contribuição que ele deu. Se você não estudar o período, não entender essa geração e o que é contracultura, vai achar que é lixo e não vai querer ler”.

PITACOS SOBRE BURROUGHS…

…Burroughs viajou o mundo, trabalhou como jornalista, barman, detetive e exterminador de insetos. Vivia envolto em polêmicas. Falava abertamente de suas relações homossexuais e teve repetidos problemas com a polícia. Acidentalmente, matou sua esposa, Joan Vollmer, na Cidade do México, em 1951. Dizem que estava bêbado. Atirou com uma pistola, errando o alvo. A experiência traumática o teria levado a escrever.

…Foi ele quem inventou e popularizou algumas palavras muito usadas atualmente: “heavy-metal”, “hipster” (que ele definia como pessoas que não conseguiam sobreviver a um porre nem ter relações sexuais) e os termos “flower power” (slogan usado pelos hippies como um símbolo da ideologia da não violência e de repúdio à Guerra do Vietnã) e “rotten apple” (maçã podre).

…Nos últimos anos de sua vida, Burroughs se mudou para Lawrance, uma cidadezinha bucólica do Kansas (EUA). Vivia sozinho numa casa com vários gatos. Sua paixão pelos felinos rendeu o livro O Gato por Dentro. Dizia se preocupar apenas com esses animais e pensava profundamente sobre caviar. Também passava o tempo pintando quadros e praticando tiro ao alvo.

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