Natália Lage: “Quero que as pessoas parem para pensar em valores humanos e achem o seu lugar”

Fazendo humor na TV e no cinema, a atriz mostra seu lado underground no teatro

Publicado no site Saraiva Conteúdo em 03. 04. 2013
Por Carolina Cunha

“Menina, organizar o tempo está uma loucura”. A frase é da atriz Natália Lage. Motivos não faltam. Com um filme recém-lançado, Vai que dá Certo, ela agora se divide entre as gravações da nova temporada da série Tapas & Beijos, da TV Globo, e os palcos, onde mergulha no universo underground.

Depois de encenar a história do escritor J. T. Leroy, uma das grandes farsas da literatura mundial, ela chega a São Paulo com a peça Edukators, primeira versão teatral do cultuado filme alemão sobre jovens que invadem mansões para protestar contra o sistema.

natalia-1Em entrevista ao SaraivaConteúdo, ela fala sobre seus últimos trabalhos e como seus personagens refletem em sua vida.

Em Vai que dá Certo, você está cercada por meninos. Já descobriu todos os segredos do Clube do Bolinha?

Natália Lage. Eles são muito divertidos, e fui super bem-acolhida. Claro que tem as piadas internas, e algumas eu nem entendia – e nem queria entender (risos). Mas a minha personagem tem uma energia muito yang, é mulher, mas é da turma deles, malandra e se vira bem.

Como foi atuar num filme de comédia?

Natália Lage. Adoro fazer comédia! Minha experiência é mais na TV, mas é um universo que me interessa muito. O filme é uma comédia diferenciada. Não é fácil fazer as pessoas rirem, e eu não sou exatamente uma comediante nata. Não nasci superengraçada, mas gosto de explorar o humor.

No filme, sua personagem tem um forte sotaque paulista. Quanto tempo levou para falar como um paulistano da gema?

Natália Lage. Tenho um ouvido muito bom para sotaque. Não demorei a pegar e, como não tinha que ser de uma região específica de São Paulo, cada um inventou o seu. Também tivemos uma professora de prosódia que ajudou.

Natália Lage em cena de Vai que da Certo

O filme cita a tal crise dos 30. Você passou por ela?

Natália Lage. Acho que sim, mas de um jeito diferente. No filme, eles entram em crise porque não têm uma vida financeira. Trabalho desde criança e acho que minha crise dos 30 foi aos 15 anos. Mas na verdade me questiono e tento entender cada vez mais a profissão que escolhi. Sou uma pessoa de natureza reflexiva e gosto de perguntar o porquê de fazer certas coisas, para quem e para onde. Mas não é que nasci em crise, tá (risos)?

O que você sempre acha que vai que dar certo, mas no final…?

Natália Lage. Relacionamento. Eu acho que vai dar certo, mas não dá (risos). A gente sempre coloca expectativa nas coisas, algumas têm retorno, outras não. Eu procuro ter um olhar mais “Polyana” e ver que até o que não dá certo, dá certo.

Você fez uma peça teatral sobre o escritor J. T. Leroy. Agora está em Edukators. Esse universo mais alternativo é algo que te interessa?

Natália Lage. Me interesso, sobretudo, por peças que levantam assuntos que são pertinentes para a sociedade. Algo que faça as pessoas pararem um pouco para pensar sobre como elas se veem no mundo. No caso do J. T., havia uma reflexão sobre o papel da mídia e do valor do escritor. Havia ali perguntas que me interessavam como artista. Edukators é também uma peça política, contundente com o momento atual do Brasil. Ela fala de diferenças sociais e de como, de uma geração para outra, as ideias podem mudar.

Na peça Edukators, atriz encarna o papel da ativista Jule

Você se surpreende por ser indicada para papéis de jovens?

Natália Lage. Tem a ver com a minha própria juventude, que, vamos falar sério, já está acabando. Tenho esta carinha de 20, e muitas vezes me chamam para fazer jovens de 20. Enquanto eu tiver essa cara de criança, aceito os papéis (risos).

Como você enxerga a juventude de hoje?

Natália Lage. Acho que ao mesmo tempo em que você não tem um inimigo claro como na época da ditadura, os jovens estão se colocando nas redes sociais e manifestações, o que ficou claro na Primavera Árabe ou em Occupy Wall Street. Isso é muito positivo. As pessoas estão cada vez mais individualistas e preocupadas em pagar suas contas, o que é legítimo, mas tem uma série de demandas ecológicas e sociais, e [as pessoas] têm que ver como é possível se comprometer fazendo pequenas ações. Quero que as pessoas parem para pensar em valores humanos e achem o seu lugar.

Você começou a trabalhar cedo. Suas fãs cresceram com você e agora começam a se tornar mães. Como você se sente?

Natália Lage. Escuto muito que me viram aos 13 anos, aos 8… Fico superfeliz de escutar isso, me sinto acolhida e fazendo parte de algo. Minhas amigas estão sendo mães, e estou louca para ter filhos. Agora estou trabalhando muito, mas a esperança é a última que morre.

O que você ainda quer fazer como atriz?

Natália Lage. Tenho vontade de ser diretora. Acho que a hora vai chegar. Hoje, quero fazer mais cinema.

Como suas atuais personagens refletem em você?

Natália Lage. Para Jule (Edukators) é preciso equilibrar as coisas. Com ela, me inspiro na frase do Che Guevara “Hay que endurecer, pero sin perder la ternura”. A Jaqueline (Vai que dá Certo) é uma mulher que vai à luta e está no meio dos caras. Lucilene (Tapas & Beijos) é dançarina, feminina, mas transita num universo onde você tem que ter a defesa. Todas estão dentro de mim. Essas e muitas outras.

5+: Natália Lage cita suas referências para os últimos trabalhos:

1. A ESTRADA, DE FEDERICO FELLINI

“Tem uma coisa na atriz Giulietta Masina que eu sou apaixonada: ela tem uma doçura no humor, algo que eu acho muito raro. Acho que ela faz uma palhaça que tem um brilho especial, uma graça que vem da ingenuidade, de um olhar quase infantil para o mundo, mas esperto. Acho que isso está em mim.”

2. GRANDE SERTÃO: VEREDAS, DE GUIMARÃES ROSA

“É um livro duro e doce. A linguagem tem uma beleza que nunca vi igual, um conteúdo muito poético de alguém que esta enfrentando seus medos, que tem amor, mas que não sabe lidar com ele, e quando ele passa, entende que tudo deveria ser muito possível. São coisas que estão em mim.”

3. STALKER, DE ANDREI TARKOVSKI

É um filme que fala de resistência poética. Alguém que tenta ver poesias e levar poesia para pessoas que estão com interesses escusos e querem outra coisa. É todo metafórico e cheio de símbolos. Filmado de maneira seca, é longo e demorado, mas é maravilhoso.”

4. POEMAS, DE WISLAWA SZYBORSA

“Fiquei absolutamente apaixonada por essa poeta polonesa. Ela tem uma poesia muito simples, ela é muito objetiva mas muito profunda, com um olhar agudo e vertical sobre a vida.”

5. CÊ, DE CAETANO VELOSO

“Tem uma pegada de rock sequinho, mas muito sofisticado, e letras muito inteligentes. Gosto dos álbuns dessa trilogia rock que ele terminou agora. As músicas de Caetano sempre me inspiram e me fazem viajar, me levando a outros lugares e colorindo os meus dias.”

Serviço – Edukators

Onde: Sesc Belenzinho – R. Padre Adelino, 1000, Belenzinho – São Paulo
Quando: de 12 de abril a 26 de maio de 2013. Sextas e sábados, às 21h30. Domingos, às 17h
Quanto: R$ 6 a R$ 24

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