Entrevista: David Michelsohn, criador da cerveja Júpiter

David Michelsohn, criador da cerveja Júpiter, é mais um personagem da série ‘Retratos’

ENTREVISTA E ROTEIRO: CAROLINA CUNHA | PRODUÇÃO, FILMAGEM E EDIÇÃO: DIEGO RINALDI

Os corredores de um sobrado ao lado do movimento Largo da Batata, no centro de São Paulo, guardam dezenas de caixas com garrafas de 300 ml de uma cerveja que chama atenção pelo rótulo (uma mão segurando um raio). O sobrado é o QG da Júpiter, microcervejaria fundada em 2013. Quem nos recebe é o paulista David Michelsohn, 37, criador da cerveja.

– Aceita um gole?

É um dia de sol intenso, e a avermelhada Júpiter desce refrescante. A receita da bebida de estilo American Pale Ale foi criada ali mesmo, no quintal da casa, que na época era a residência do irmão de David.

É David quem cuida pessoalmente de tudo. Da fabricação à venda, que acontece em bares e empórios especializados. O empreendedor sabe das dificuldades de atuar num mercado exigente.

– As dificuldades são imensas, mas não tem essa de eu não vou conseguir. Eu vou conseguir e vai valer a pena.

Tudo começou quando ele, então um designer gráfico, leu uma matéria sobre Sam Calagione, dono da Dogfish Head Brewery, famosa cervejaria artesanal norte-americana. Ao ler a história, David descobriu que era possível fazer cerveja em casa. Começou a estudar sobre o assunto e comprou pela internet um kit básico para produzir a bebida, com malte, lúpulo e levedura.

Aos poucos ele e seu irmão entrariam no mundo dos homebrewers, nome dado aos cervejeiros caseiros. A primeira receita que os dois criaram foi o resultado de mais de dez tentativas. Valeu a pena. A tal “cerveja diferente” impressionou os amigos. Na segunda receita, David sabotou a cerveja que o irmão estava criando.

– Ele bobeou. Assim que ele virou as costas eu entrei na casa dele e botei mais lúpulo na maturação. Ficou deliciosa!

A cerveja caseira foi batizada de Tupã, o Deus do Trovão na mitologia tupi-guarani. Um nome bem brasileiro como a dupla desejava. No rótulo, o label “Feita em SP” lacra a origem da bebida.

Em 2012, o paulista foi demitido de uma grande revista onde trabalhava como designer. Para passar o tempo e diminuir a ansiedade e o chororô, ele começou a se dedicar mais ao hobby. David passava horas fabricando lotes de cerveja. Começou a se apaixonar pelo processo de moer o grão de malte, observar o fogo fumegante das panelas, sentir o cheiro de malte no ar e testar novos sabores. “Minha brincadeira era ficar inventando”, conta.

Ficou entregue ao paciente processo de manipular matérias-primas. Em seu laboratório caseiro, sua diversão eram as experiências aromáticas com ingredientes inusitados como mel, rapadura, caqui, castanha e tangerina. Até a romã do pé do quintal da vizinha foi parar na panela.

Depois, ele tomou coragem e junto com o irmão decidiu criar uma marca comercial, a Júpiter, nome que se refere ao Deus do Trovão para os romanos. Foi ele mesmo quem desenhou o rótulo. Para produzir a cerveja, a escolhida foi uma fábrica em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.

David se diz obcecado por cerveja e por sabores em geral. Para ele, toda boa cerveja tem que trazer a alma e a paixão de quem a criou.

– Eu fico procurando as relações entre sabor e aroma, presto atenção no gosto, vejo a cor, textura, se é mais encorpada, se é mais leve. Cada estilo tem a sua história pra contar.

As experiências cervejeiras continuam. Agora ele está testando uma receita com pimentas mexicanas produzidas pela empresa De Cabrón. As pimentas chili são cultivadas no interior de São Paulo, em uma antiga fazenda de café.

A primeira vez que mordeu a especiaria ele imaginou no que aquilo poderia se transformar. Aconteceu ao visitar a fábrica, quando ele viu uma mesa com várias amostras de pimenta defumada.

– Mordi um pedaço e tinha sabor de chocolate. Naquela hora eu vi que essa é uma nova cerveja gastronômica pra acompanhar pratos. E a influência deles é bem mexicana. Eu já fiquei imaginando um rótulo bem Dia dos Mortos. Foi um instante, e já veio um monte de ideias na minha cabeça. Naquela hora em que eu mordi a pimenta.

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