Eduardo Srur: um artista da cidade

Publicado no portal Saraiva Conteúdo em 29. 09. 2011
Com suas intervenções urbanas, Eduardo Srur retoca com humor e crítica a paisagem caótica de São Paulo

Por Carolina Cunha

Em uma manhã de março de 2008, o rio Tietê, em São Paulo, amanheceu com uma inusitada cena: 20 garrafas coloridas gigantes, com formato de PET, “decoravam” suas margens. Poucos meses depois foi a vez dos monumentos históricos de heróis nacionais – entre eles Borba Gato – ganharem coletes salva-vidas. Já em 2010, a ousadia fez com que algumas vaquinhas da Cow Parade ganhassem um companheiro, um libidinoso Touro Bandido, que tirou o sono dos organizadores do evento.

Nos últimos anos, São Paulo foi palco de diversas intervenções urbanas, e entre as mais conhecidas estão a do paulistano Eduardo Srur, 37, autor das ideias citadas acima. Formado em artes plásticas pela Faap, o artista faz da cidade e dos espaços públicos urbanos a sua galeria. Um pedestre desavisado pode até não saber quem ele é, mas certamente já foi impactado por alguma de suas intervenções na metrópole.

Curiosamente, foi pela pintura que Srur virou artista, nos anos 1990. “Comecei pintando na faculdade. Fiz exposições coletivas e individuais, recebi prêmios… Foi importante começar com essa linguagem mais tradicional, que funciona como um porto seguro para mim, onde busco muitas informações para o meu trabalho. Continuo pintando, mas hoje meu trabalho principal são as intervenções”.

Em suas criações, já fez de tudo: explodiu tintas em outdoors publicitários, ocupou o Rio Pinheiros com caiaques tripulados por manequins (também para chamar a atenção sobre o rio morto), pendurou bicicletas no céu de São Paulo e cabanas em um prédio abandonado, esta, a que ele considera a sua primeira grande intervenção na cidade.

Chamada “Acampamento dos Anjos”, a intervenção consistia na instalação de 35 barracas de camping fixadas na fachada da imensa estrutura de concreto de 24 andares, atrás do hospital Emílio Ribas, na Avenida Dr. Arnaldo, em 2004. Mas antes de chegar à capital paulista, a instalação já havia sido montada no prédio de Srur e em dois salões de arte – no Museu de Arte Contemporânea, em Curitiba, e no Museu de Arte de Santa Catarina, em Florianópolis.

De lá para cá, muitas outras obras deste “retocador de paisagens” invadiram a cidade – e outros fora dela – levantando reflexões sociais e políticas que podem despertar no público diversas reações, e nunca passam em branco.
“Eu trabalho com a alteração da paisagem urbana e me interessa o resultado que vai ter no espectador. Desenvolvo meu trabalho pensando na reação do outro, como ele vai reagir… Quero tirá-lo de uma anestesia e fazê-lo refletir, pensar. Os locais eu escolho de acordo com o espaço, pela intuição ou estratégia”, conta Srur.

Na rua, suas obras conseguem uma repercussão maior e alcançam diferentes públicos, de diferentes idades e classes sociais. Aliando humor e crítica, Srur acredita que a maioria entende o recado que ele quer passar.

Outro motivo que o leva á rua são as dimensões de seu trabalho, que na maioria das vezes exigem amplo espaço. Para materializar seus trabalhos mirabolantes, ele conta com o apoio da Attack, agência que criou para atuar com intervenções urbanas e produzir trabalhos especiais. É uma das primeiras a atuar com esse tipo de trabalho.

Visto por muitos como “artista engajado” – além da crítica social, seu trabalho aborda temas como sustentabilidade e também atua com projetos educacionais -, tal classificação não o incomoda. “Eu rompo as fronteiras do sistema institucional da arte. O artista não é mais um marginal, tem que estabelecer uma postura na sociedade”.

Apesar de realizar trabalhos fora de São Paulo – em 2010 foi curador dos projetos sustentáveis do festival SWU, entre outros – o artista diz que a cidade se tornou seu “laboratório de pesquisa”, inspirado pela forma “desigual, diferente, caótica” da metrópole.

Esse ritmo frenético da cidade também parece influenciar Srur: em constante processo criativo, ele diz que separar vida e trabalho ainda é algo impossível, pois está sempre pensando em arte.

Até o final de 2011, ele avisa que os paulistanos podem ter novas surpresas, mas sem dar pistas do que se trata. Em se tratando de Srur, podemos esperar o imprevisível.

1.418 Comments

  1. Whenever you hear the consensus of scientists agrees on something or other, reach for your wallet, because you are being had.