A poesia do teatro para bebês

Publicando no portal Saraiva Conteúdo em 04 de agosto de 2011

Sentados na plateia, 25 bebês assistem à história com atenção, acompanhados por adultos. Os pequenos de até três anos são o público principal do Primeiro Teatro- Ciclo Internacional de Teatro para Bebês, projeto destinado à primeira infância e que acontece em Brasília e no Rio de Janeiro, entre os dias 28 de julho a 21 de agosto

Por Carolina Cunha

No palco de um teatro de Brasília, uma mulher segura uma caixinha de música. Enquanto isso, perto do tablado é possível escutar um choro de criança. De repente, a caixinha se abre e uma bailarina começa a rodopiar. O choro pára. “Olha pai, é a bailarina!”.

Sentados na plateia, 25 bebês assistem à história com atenção, acompanhados por adultos. Os pequenos de até três anos são o público principal do Primeiro Teatro- Ciclo Internacional de Teatro para Bebês, projeto destinado à primeira infância e que acontece em Brasília e no Rio de Janeiro, entre os dias 28 de julho a 21 de agosto.

O grupo Sobrevento, referência em teatro de animação no Brasil e o grupo espanhol La Casa Incierta –renomada companhia de teatros para bebês da Europa, são os responsáveis pela iniciativa. Compondo a mostra de peças gratuitas, estão os espetáculos Bailarina, Meu Jardim, Geometria dos Sonhos e Tic Tac Tic Tac.

Criada em 2010, Bailarina é a primeira montagem do Sobrevento voltada para esse público. Para fazer esse tipo de teatro, a produção precisa cuidar de alguns detalhes: as apresentações duram apenas 30 minutos e se alguém chorar muito pode sair da sala e entrar de novo. Se precisar, existe até um berçário do lado de fora.

O Teatro pra Bebês pode ser uma novidade no Brasil, mas já existe na Europa desde os anos 80. E quem trouxe a ideia para cá foi o próprio Sobrevento, após fazer um intercâmbio com a trupe do La Casa Incierta. A partir daí, o grupo vislumbrou novas possibilidades de criação – uma linguagem sensorial que usa poesia, sons, movimentos, gestos e efeitos de luz.

“Esse teatro tem um tempo que o adulto já perdeu. O bebê tem um olhar como quem vê as coisas pela primeira vez. É uma curiosidade infinita. Sabe quando você leva seu filho para conhecer o mar? Esse estado de deslumbramento transforma a gente”, conta Sandra Vargas, atriz e autora de Bailarina.

A atriz Sandra Varga, do grupo de teatro Sobrevento durante o I Ciclo Internacional
de Teatro para Bebês

Para ela, o mais é importante é escutar as crianças e suas reações. A atriz diz que já vivenciou algumas situações curiosas. Certa vez, a personagem teve que chorar. Na mesma hora, um bebê também chorou. “O bebê sente as emoções e se manifesta imediatamente”, acredita Sandra.

Em outra cena, a bailarina pega um colar de pérolas e simula prender suas próprias mãos. “Eles falaram imediatamente: nossa, ela está presa! Aí eu falo: ´assim eu não consigo mais sonhar`. Quando eu solto o colar, bebês muito pequenos dizem: ´assim, sim`. Eles conseguem entender”.

As luzes se acendem. Ao final da peça, Sandra continua no palco. Nesse instante, uma menina invade o tablado para roubar um beijo da bailarina. A atriz retribui com carinho. “É uma troca muito maior com os espectadores”.

Crianças após apresentação do grupo Sobrevento

Para encantar os pequenos, Sandra diz que é preciso confiar na sensibilidade artística. “Os pais vem aqui com essa expectativa de um viés educativo. Mas o texto é poético. A gente está procurando a delicadeza. Tudo aquilo que esse mundo embrutecido faz para abafar”.

Dentro do círculo do La Casa Incierta

No final de 1998, uma peça mudou a vida do dramaturgo espanhol Carlos Laredo. “Aquilo me pareceu o maior teatro contemporâneo que eu tinha visto até aquele momento”, lembra.O espetáculo era do francês Laurent Dupont, pioneiro no teatro para a primeira infância e que marcará presença no Ciclo de Teatro para Bebês.

Dois anos depois, Laredo estava criando a companhia La Casa Incierta, em parceria com sua esposa, a atriz Clarice Cardell. O grupo trabalha há nove anos com espetáculos para a primeira infância e têm uma bagagem com mais de 1.300 apresentações.

Na mostra, o grupo traz o espetáculo Geometria dos Sonhos, no qual a pedra é o elemento principal da trama. “Os adultos comentam sobre a atriz, o espaço e o texto. Mas nunca me falaram da pedra. As crianças não. Elas só falam dela”, diz o dramaturgo. Para ele, a criança tem uma capacidade inata de entendimento. “Ela nasce com possibilidade de fazer conexões novas. A poesia é só isso – conectar coisas que emocionam”.

Quando se trata do público infantil, a entrega à história parece ser a principal diferença. “O teatro é um rito. Se eu estou contigo dentro do círculo, vou com você até o final. Se estou fora, eu olho com indiferença. O adulto está mais fora e a criança dentro. Essa interação é de uma intensidade que arrepia o ator.”

Mostra de teatro para bebês
Datas: De 28 de julho a 21 de agosto

CCBB Brasília
SCES, Trecho 02, lote 22, Brasília
Informações: (61) 3310-7087

CCBB Rio de Janeiro
Rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro
Informações: (21) 3808-2020

642 Comments

  1. Pretty! This was an incredibly wonderful article. Many thanks for providing this info.