Bambas do afrobeat celebram o gênero na Virada Cultural

Palco Júlio Prestes ganha destaque na Virada Cultural de São Paulo, com line-up de mestres do AfroBeat e da música de raiz africana

Por Carolina Cunha/ Publicado no portal Saraiva Conteúdo em 3 de maio de 2012

A Virada Cultural é um evento que traz centenas de atrações gratuitas em diversos pontos da cidade de São Paulo.

Na edição deste ano, um palco em especial chama a atenção: o da Praça Júlio Prestes, que traz uma escalação com pesos pesados da música africana, nomes que fizeram história na música negra e que ajudaram a criar o afrobeat e o reggae. Para muitos, é o grande filet mignon do evento.

O afrobeat é um gênero responsável pelas mais vibrantes e poderosas músicas contemporâneas que a África já criou.

Surgiu na virada dos anos 60 para os 70, nas mãos do nigeriano Fela Kuti (1938-1997), que liderou as bandas Afrika 70 e Egypt 80.

O músico deixou a Nigéria em 1958 para estudar na Inglaterra, tendo se encantado pela pedrada funk de James Brown e os movimentos de contracultura que explodiram nos anos 60.

De volta à Nigéria, Fela Kuti começou a experimentar novos sons. Naquela época, muitos países africanos tinham uma cena forte de big bands que tocavam o Highlife, um gênero de jazz dançante caracterizado por guitarras e trompetes.

A partir dos anos 70, Fela Kuti misturou o Highlife, o jazz, o funk, o soul e as batidas do iorubá para criar um novo som, que batizou de “afrobeat”.

O ritmo era marcado por composições longas, letras politizadas e um groove hipnótico com guitarra e baixo repetitivos, teclado hammond, naipe de metais e levadas de percussão.

Quem divide com Fela a autoria da criação do gênero é o nigeriano Tony Allen, que estará nesta Virada Cultural.

Considerado um dos maiores bateristas do mundo, Allen acompanhou Fela por 26 anos e foi responsável pela sonoridade única das batidas de seus arranjos musicais.

Certa vez, o superstar do afrobeat falou que sem Tony Allen, ele precisaria de quatro bateristas tocando ao mesmo tempo.

Os dois se conheceram em 1964, quando o cantor procurava um baterista para a banda Koola Lobitos. Depois da audição, Fela disse: “Como você é o único cara da Nigéria que toca deste jeito?”.

O lendário batera tem um estilo próprio, que cruza a fronteira de ritmos. Ele mistura tudo ao mesmo tempo, em batidas quebradas, às vezes com viradas que nem bateristas profissionais sonham em conseguir. Sem o “molho” de Allen, provavelmente o afrobeat não teria nascido.

No show brasileiro, Tony Allen vai tocar as músicas do seu último trabalho solo, Secret Agent. Depois da Virada, o músico segue para o Rio de Janeiro, onde fará um show no domingo.

Allen já fez parceria com diversos músicos, entre eles Damon Albarn (Blur) e o baixista Flea (Red Hot Chilli Peppers), com quem montou a banda Rocket Juice and the Moon. Outro parceiro é o guitarrista Ebo Taylor, que também se apresentará na mesma noite.

Nascido em Gana, Ebo Taylor pode ser considerado um B.B King da África. Ele é uma lenda viva do Highlife, ritmo que toca desde os anos 50. Aos 74 anos, o guitarrista ainda tem energia para compor músicas novas e cair na estrada. O músico acaba de lançar um novo disco, Appia Kwa Bridge, que conta com a participação de Tony Allen e da alemã Afrobeat Academy, uma das melhores orquestras do gênero.

No álbum, Ebo faz um tributo às canções antigas de Gana, como cantos de amor e guerra, provérbios e cantigas de ninar. Nos anos 60, Ebo estudou música em Londres e chegou a participar de jam sessions com Fela Kuti, com o qual manteve uma amizade duradoura. Suas grandes paixões sempre foram o jazz e o improviso, e nisso ele é um mestre. Ao vivo, sua guitarra com tempero tropical produz solos funkeados e imprevisíveis.

Quem também sobe no palco na mesma noite é um herdeiro direto de Fela Kuti. Filho mais novo de Fela, Seun Kuti faz jus aos genes e ao talento musical do pai. O caçula vem ao Brasil acompanhado da lendária big band Egypt 80, que mantém a maior parte da formação original.

Nascido em 1983, aos nove anos Seun já participava dos ensaios da banda do pai. Depois da morte de Fela, em 1997, ele assumiu a liderança da Egypt 80, atuando como vocalista e saxofonista.

Desde a nova formação, já gravaram dois álbuns juntos. Em 2010, o nigeriano esteve no Rio de Janeiro tocando no festival Back to Black. Seun é um fiel seguidor do afrobeat – e também dos trejeitos do pai – e, em cena, vai mostrar seu lado cantor e compositor trazendo músicas do seu ultimo álbum, From Africa with Fury: Rise, produzido por Brian Eno, que chegou a dizer que Seun e Egypt 80 “fazem uma das músicas mais selvagens e vivas do planeta”.

A big band reúne dez músicos que misturam elementos do samba, música africana e ritmos latinos. O nome faz referência à banda Afrika 70, que acompanhou Fela Kuti, e também ao endereço do estúdio onde o conjunto nasceu, o número 70 da Rua Treze de Maio, centro de São Paulo.

O álbum de estreia do grupo foi lançado no final de 2011 e entrou em várias listas de melhores do ano. Nas apresentações ao vivo, a banda instrumental aposta na improvisação e na sonoridade feita para dançar.

Sinfonia africana

No dia 5, o show de abertura desse palco começa com o reencontro do músico congolês Ray Lema com a Orquestra Jazz Sinfônica, big band brazuca que faz música experimental com arranjos sinfônicos. Nessa mistura, o público pode esperar um clima “sinfonia africana”, bem original e sem limite de fusões. Em 2010, a orquestra se apresentou em São Paulo com a participação de Lema, trabalho que resultou num CD lançado apenas na Europa.

O congolês já esteve no Brasil outras vezes, tendo tocado na última edição do Rock in Rio, no Rio de Janeiro, na Tenda Raízes. Aos 66 anos, Ray Lema é um dos nomes mais criativos da World Music. O maestro, compositor e cantor toca diversos instrumentos, com destaque para o piano. Nos shows, ele canta principalmente em Lingala, língua de origem banto. Exilado do Congo durante a ditadura de Mobutu, Lema morou nos Estados Unidos e vive em Paris há quase 30 anos.

No dia 6, será a vez do reggae, com apresentações de bandas viscerais jamaicanas, como Toots and The Maytals, avôs do ska que influenciaram diversas gerações de músicos, e The Abyssinians, banda fundada em 1968, responsável por cravar hits rastafáris na história.

Da Nova Zelândia chegam as boas vibrações pop da banda Katchafire, que faz um “reggae kiwi”, mistura de reggae com música maori.

No mesmo palco, haverá ainda apresentações de mestres da música afro-brasileira, como os baianos Lazzo Matumbi e Gilberto Gil, que encerrará o evento.

Aliás, Gil conheceu Fela em uma viagem à Nigéria em 1977 e, no prefácio da sua biografia, escreveu que ele é “o mais recente gênio africano”.

Com um time desses, dá até para imaginar que Fela Kuti estará entre nós.

Confira abaixo a programação do Palco Júlio Prestes:

18h00 – Ray Lema e Orquestra Jazz Sinfônica
20h30- Ebo Taylor
00h00- Tony Allen
02h30 – Seun Kuti & Egypt 80
05h00 – Bixiga 70
08h00- Katchafire
10h30 – Lazzo Matumbi
13h00 – Toots and the Maytals
15h30 – The Abyssinians
18h00 – Gilberto Gil

Relógio da Estação – Orixás
Djembefolá – Grupo Ares às 20h00, 04h00 e 17h00.

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